Cerca de 20 mil pessoas vivem nas ruas de Salvador

“Depois que fiquei presa não gosto mais de lugar com fechadura. Quero ser livre”. O desabafo é de uma das cerca de 20 mil pessoas que vivem em situação de rua em Salvador, segundo levantamento inédito feito pelo Projeto Axé.
A declaração é de Eva Santos, 49, que há dois tem as vias da Cidade Baixa como lar. Ela ainda engrossa a estatística cada vez maior de ex-detentos que vão viver nas ruas, mesmo sobrando mais de 150 vagas nos abrigos da cidade.
“Temos visto cada vez mais egressos do sistema carcerário. Alguns têm medo de fazer o cadastro achando que tem risco de voltar para a cadeia”, endossa a diretora de Promoção Social Especial da Secretaria Municipal de Promoção Social, Esporte e Combate à Pobreza (Semps), Juliana Portela.
“Fui acusada de roubar um celular numa festa de largo. Mas não fui eu. Acabei caindo na detenção e fique lá cinco anos. Quando sai de lá, não tive emprego,
nada. Sobrou a rua. Meu marido não me quis mais e ninguém da minha família”, conta Eva.
Grávida de cinco meses, ela se vê obrigada a abandonar as ruas e a liberdade que tanto preza: “Agora com esse menino na barriga não tem jeito. Vou ter que procurar algum abrigo, mesmo”. A história de Eva não é um conto isolado nesta vasta bibliografia que repousa, geralmente, sob os viadutos da capital baiana.

Fé no Penta

Há 15 anos dormindo nas calçadas da cidade, José Augusto Santa, 58, é protagonista de uma daquelas histórias que poderiam estar nas telas do cinema. Em 1998, Santa, como muitos brasileiros, pôs a maior fé no pentacampeonato mundial da Seleção Brasileira. Mas ele não contava com a convulsão de Ronaldo Fenômeno e a atuação de gala do meia-atacante francês Zidane, que culminou com a amarga derrota brasileira.
“Eu tinha apostado quase todo dinheiro que eu tinha no Brasil e perdi tudo. Fui abandonado por todo mundo. Acabei perdendo a cabeça e fiz besteira. Fui preso assaltando uma casa lotérica na minha cidade (Barreiras, no Oeste) e fiquei preso um tempão. Quando saí da cadeia, não tinha mais vida. Vim direto pra Salvador pegando carona na boleia dos caminhões”, conta.
Santa também não se dá bem nos espaços de acolhimento. “Não gosto de abrigo. Depois que saí do sistema (carcerário), todo lugar que me perguntam meu nome completo me faz lembrar tudo que já passei de interrogatório. E foi um bocado. Todo dia era isso”, relembra, cheio de receio.
Apesar de fugir dos espaços fechados, ele acredita que, em breve, terá que vencer o trauma e viver entre quatro paredes. “Estou me vendo velho e acho que vou ter que cair pra um abrigo desses, mesmo. Viver na rua tem que ter força pra brigar a qualquer hora. Só durmo de dia. Passo a noite andando por aí. Depois que saí da cadeia foram poucas vezes que eu dormi. Já passei umas noites em abrigo só para matar a saudade de como é dormir de noite”, diz.

Repulsa

Segundo Juliana Portela, da Semps, a repulsa dos moradores de rua aos abrigos não é algo que se explica tão facilmente. “Tem pessoas que nasceram na rua, então é difícil desconstruir a rua como território de identidade dela. Precisa fazer um trabalho de construção de vínculo com a pessoa. Às vezes, a mulher quer ir, o homem não quer. Às vezes têm um preconceito com o abrigo, rixa de bairro”, explica.
Conhecido como Engraxate, Itaurano Nascimento Pedra, 31, vive desde os 10 anos nas ruas. Apesar de não ter sido preso, já foi detido por porte de drogas. “A polícia me levou, ouviu meu depoimento e me liberou”, lembra. O máximo que conseguiu ficar num abrigo foi por cinco dias.
O asco aos abrigos, porém, não é uma regra entre os moradores de rua que deixaram a prisão. Rosenildes Santos de Lima, 41, que há 17 anos habita os arredores da Avenida Lafayete Coutinho, a Contorno, contou os dias que passou na ala feminina da Lemos Brito.
“Fiquei um ano e 12 dias presa injustamente. Os homens (policiais) deram a batida e jogaram a droga pra cima de mim”, relembra. “Já morei em um abrigo em Itapuã, mas me tiraram de lá. Hoje quero voltar para um lugar tipo aquele, mas é muito difícil”, afirma.

Há vagas

De acordo com a Semps, apesar do grande número de pessoas em situação de rua em Salvador, ainda há vagas nas 12 unidades de acolhimento disponibilizadas pela pasta. Atualmente, são 600 vagas – e, dessas, 431 estão ocupadas.
Só em 2017, a Semps abordou 2 mil pessoas. Dessas, 415 aceitaram ser cadastradas pelos agentes. Segundo a diretora, a média do tempo de rua era de mais de um ano. O motivo mais comum para estarem lá era o uso de substâncias psicoativas – especialmente o crack.
“Com o uso, tem o rompimento do vínculo (familiar), a perda do emprego, a desestrutura. Tem a questão da crise. A gente tem observado um aumento de pessoas do interior que vieram em busca de melhores chances de emprego, mas não conseguem e acabam indo para a rua”, explica.
Para criar um vínculo, eles trabalham com equipes fixas – e evitam trocar os educadores. “É um trabalho de construção de vínculo, que leva tempo”, explica. Além das 12 unidades de atendimento e de três Centros Pop, a Semps oferece auxílio moradia para quem sai do abrigo. Hoje, 672 famílias recebem o benefício, de R$ 300.
“É um recurso que dá para alugar uma casa e a pessoa pode correr atrás de um trabalho para pagar as outras despesas. As unidades de acolhimento têm um número expressivo de vagas. São quartos individualizados, com três refeições e educadores 24 horas por dia”.

Equipe multidisciplinar

Além da Semps, a Defensoria Pública do Estado tem uma equipe multidisciplinar de atendimento a pessoas em situação de rua. De 2013 até o início de 2016, foram cerca de 1,9 mil atendimentos. A principal demanda é por documentos.
A equipe conta, ainda, com uma psicóloga, assistentes sociais, estagiários de Direito e estudantes do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia e de Serviço Social da Unijorge.
“Temos casos de violência institucional, por conta da Polícia Militar, da Guarda Municipal e até de profissionais da rede de assistência e de saúde. A gente consegue juntar toda a documentação, exame de corpo de delito, relatório médico e até entrar com ação de indenização”, explica a defensora pública Fabiana Almeida, coordenadora da Equipe Pop Rua. (correio24horas)

Nenhum comentário:

Postar um comentário