Cura gay × Gonorreia

Na semana em que o México tremeu, deixando, até agora, mais de 300 mortos identificados e que o Brasil viu guerra civil urbana travada entre os donos do tráfico, além de outros fatos de relevância extrema, nacionais e internacionais, o que levou o Brasil a se revolver entre a indignação e o humor foi um tema da idade média: a cura gay. A decisão do juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho, de suspender parte de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e autorizar a realização, por psicólogos, de estudos, pesquisas científicas e “atendimentos” de homossexuais, caiu como uma notícia medieval nas redes sociais e acrescentou milhares de tomos às enciclopédias dos memes, absurdamente geniais.
É bom que se diga que em nenhum momento o juiz autorizou expressamente a cura gay ou considerou, em sua decisão, que a homossexualidade é uma patologia ou um desvio. Ao contrário: está dito por ele, na sentença, que ser
gay é “uma variação natural da sexualidade humana”, e que não é “condição patológica”. Mas a essa altura Inês é morta. E cremada. A comunidade LGBTT sentiu-se, sim, considerada doente no resto do texto. O juiz DETERMINA que o CFP não vete estudos ou atendimentos, desde que “de forma reservada, pertinentes à (re)orientação sexual, garantindo a plena liberdade científica”.
PSICÓLOGOS CRISTÃOS – Já de início, liberdade científica soa muito engraçado quando se sabe que quem está por trás da causa que culminou na polêmica decisão do juiz são duas dúzias de psicólogos cuja maioria se intitula “psicólogos cristãos”. Quem já viu mistura de psicologia ou ciência com religião dar coisa que preste? Uma das líderes da ação, Marisa Lobo, é famosa nas redes sociais por não se constranger em anunciar que promove a cura gay. Também é conhecida por ser, segundo ela mesma, ser “coach” (uma espécie de instrutora para tudo, inclusive para assuntos aleatórios) do paleolítico deputado Marco Feliciano (PSC-SP).
Outra coleguinha de Marisa na causa é Rozangêla Justino, punida em 2009, pelo CFP, por tratar a homossexualidade como distúrbio. Hoje, ela, além de também ser psicóloga-cristã, claro, é assessora de um parlamentar ligadíssimo a pastor raivoso Silas Malafaia. Se Malafaia ameaça em suas pregações até mesmo os casais heterossexuais que praticam sexo oral, anunciando para eles a gonorreia na boca e garganta como praga divina e o inferno pós-morte pela mesma razão, imaginemos o juízo de valor que ele e sua turma não fazem da homossexualidade.
DIABO - Mas vamos ao núcleo da coisa. Se o juiz diz, na mesma sentença, que a homossexualidade nada tem de patológico, por que, então, impedir que o CFP proíba o atendimento de homossexuais para a (re)orientação? Por uma questão lógica, se não estamos falando de doença, mas de uma condição humana, como ser negro ou branco, alto ou baixo, por que o juiz fala em atendimento para reorientação? Quem tem dificuldades com sua homossexualidade e procura a psicologia o faz para abordar suas questões existenciais como um todo, o que já acontece hoje, independentemente de sentença jurídica.
Qualquer outra coisa pode ser violência, como a praticada por famílias que obrigam filhos a serem heterossexuais e por lideranças religiosas que atribuem a condição sexual das pessoas a coisas do diabo. Se a sentença não visa cura gay, então digam o que visa. O que vão fazer sob a vigência da sentença, diferente do que hoje já é feito, entre psicólogos que seguem a ética de sua profissão e seus pacientes, na privacidade dos consultórios e combinado exclusivamente entre ambos, de quem sentenças judiciais deveriam ficar bem longe? (correio24horas)

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