'Polícia acha que quem mora no Vale das Pedrinhas é bicho', diz moradora

O clima era de indignação entre moradores do Vale das Pedrinhas depois da morte de dois jovens no final da tarde desta terça-feira (19). Mikael Militão dos Santos, 18 anos, e Yan Patrick Queiroz, 18, foram mortos pela Polícia Militar. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, os policiais foram recebidos a tiro no local e reagiram. Moradores e familiares contestam e afirmam que a PM chegou agindo com brutalidade. Houve protesto na Avenida Juracy Magalhães após as mortes e duas adolescentes foram apreendidas pela polícia. Tia de uma delas, Liana Lima se indigna: ”Yan já saiu morto, mas Michael estava vivo. Eu acho que por mais que as pessoas tenham algum tipo de envolvimento com o tráfico, não tem que chegar matando, né? A Justiça pede pra prender, mas a polícia acha que quem mora no Vale das Pedrinhas é bicho”, diz.
De acordo com informações da Polícia Militar (PM), as adolescentes de 13 e 15 anos estavam com garrafas de álcool e ameaçaram tocar fogo em um transporte coletivo. As garotas foram apresentadas na Delegacia do Adolescente Infrator (DAI), em Brotas, e aguardam a delegada para prestar depoimento. A tia nega
que elas queriam cometer vandalismo.
“Elas não estavam com álcool, não. Isso foi coisa que apareceu aí, porque as meninas só foram protestar pela morte dos amigos, ué!”, falou. Liana, que mora próximo, no Nordeste de Amaralina, também participou da manifestação. “Quando eu soube que minha prima foi detida, eu pedi dinheiro emprestado e vim para a delegacia. Eles [a polícia] tentaram pegar outras meninas também, mas só conseguiram levar as duas", completou. "A minha revolta é porque eles levaram alguém que não tem nada a ver”, acrescenta. Um dos jovens mortos, Mikael, conhecido como Popó, era amigo de uma das adolescentes apreendidas. “Popozinho era colega da minha prima e ela ficou revoltada quando soube que ele chegou morto no HGE”, disse Liana.
A avó de uma das meninas, Maria Anselma, 74, chegou a passar mal quando soube que a neta estava na delegacia. “Eu avisei para ele ficar em casa e não ir para nenhum protesto. Agora, eu estou aqui com medo”, afirmou a idosa.

CIima de terror
Após a morte dos dois jovens, o clima de tensão e insegurança tomou conta do bairro do Vale das Pedrinhas. Os ônibus pararam de circular no local e alguns lojistas decidiram fechar as portas. Uma comerciante, que preferiu não se identificar, optou por trocar o local de trabalho na noite desta segunda. “Não me ousei a botar meu ponto lá. Estamos com medo, né? Vi os comércios tudo fechando”, falou.
A reportagem do correio conversou com um morador, que também não se identificou, sobre o protesto. “Eu conhecia os meninos de vista, não sei da procedência deles, mas sei que pessoal fez a manifestação porque a polícia levou um e vivo e arrastou o outro morto pelas escada”, contou.
Com relação à denúncia das famílias de que as vítimas foram levadas do local com vida, a PM informou, em nota, que, para formalizar o registro de denúncia ou queixa, os interessados devem se dirigir à sede da Corregedoria da Polícia Militar, que está situada na Rua Amazonas, nº 13, Pituba, ou através do telefone da Ouvidoria (0800 284 0011). O boletim de ocorrência do posto do HGE informa que os jovens entraram no hospital mortos, às 11h42. Mikael foi baleado no abdômen, na cervical e no tórax direito posterior e Yan foi baleado no tórax.

Ônibus
Na tarde de ontem, a SSP-BA informou ter recomendado que os ônibus que circulam no bairro cheguem somente até a entrada do Vale das Pedrinhas. “Apenas por precaução, orientamos para que os ônibus, que circulam no bairro, sigam somente até a entrada do Vale das Pedrinhas. O policiamento permanecerá reforçado, garantindo a manutenção da rotina dos moradores”, ressaltou o comandante da 40ª CIPM, major Hamílton Souza Teixeira Júnior.
Diretor de Saúde e Segurança do Sindicato dos Rodoviários, Pedro Celestino informou que, após relatos de insegurança da categoria que circula na área, o sindicato decidiu por suspender a entrada de ônibus no final de linha do Vale das Pedrinhas, adotando, provisoriamente, como final de linha a Rua do Canal. "Tivemos relatos de rodoviários de que havia facções passando no final de linha com armas de grosso calibre. Por isso, a decisão de mudar o final de linha até que a paz seja reestabelecida no local", explicou. (correio24horas)

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