Sob suspeita: Acidente com catamarã pode não ter sido provocado em choque com baleia

Estragos provocados pelo impacto sofrido pelo catamarã Farol do Morro são bem visíveis após embarcação ter sido retirada do mar para perícia e  reparos. (Foto reprodução)
Embarcação estava com 26 passageiros quando teve que desligar um dos motores e ser escoltada até o Terminal Náutico de Salvador para chegar com segurança. Investigações começaram.
A Marinha do Brasil já começou a investigação sobre o acidente com o catamarã Farol do Morro, que ficou sem um dos motores durante a travessia entre Morro de São Paulo e Salvador, após, supostamente, ter atingido uma baleia. A ocorrência foi na manhã de ontem(11), mas nesta terça-feira, começam a surgir novas versões sobre o que pode ter provocado a quebra de um dos motores e outros danos ao casco da embarcação.
Um dos locais, por onde, provavelmente, começou a entrar água no catamarã, logo depois do impacto(Foto: Arquivo Pessoal)
O #AgoraNaBahia teve acesso a fotos feitas no estaleiro onde o catamarã está sendo consertado e a detalhes que podem levar a mudanças na investigação. Nesta terça-feira, peritos da Marinha já foram ao local fazer os primeiros exames em todos os compartimentos da embarcação, fotografando com cuidado todos os detalhes. O órgão tem prazo de 90 dias para a conclusão do inquérito, quando o assunto vai ser concluído.
A versão do comandante da embarcação e de passageiros também vai ser importante para a conclusão do inquérito. As primeiras informações são de que, no trajeto que fazia de Morro para Salvador, após começar a viagem às 9h20, o Farol do Morro avistou baleias na rota de navegação, o que chamou a atenção do comandante e de alguns passageiros. De repente, houve um impacto forte na parte inferior externa do casco, provocando grande susto e pânico entre os 26 passageiros que estavam a bordo.
Imediatamente, segundo alguns passageiros, o comandante do catamarã relatou choque com uma baleia e os tripulantes passaram a orientar os passageiros e distribuir coletes salva-vidas. Minutos depois, a preocupação dos tripulantes foi retirar água de um dos porões, usando baldes. Essa situação aumentou ainda mais a preocupação, pois o catamarã adernou um pouco para esse lado de onde entrava água pelo casco atingido.
O comandante informou aos passageiros que a viagem seria em velocidade mais lenta por causa da parada de um dos motores atingido pelo choque com a suposta baleia. A partir daí, medidas de emergência foram adotadas, com o deslocamento de um navio e duas lanchas da Marinha, que fizeram a escolta do Farol do Morro até o Terminal Náutico, onde todos os passageiros chegaram com segurança, sem registro de problemas, além dos emocionais.

Logo depois que os passageiros desembarcaram do Farol do Morro, a Marinha começou, imediatamente, o trabalho de investigação. Essa ação vai durar até que sejam necessários detalhes que completem o laudo final dos peritos.
Os danos foram visíveis com a retirada da embarcação da água. Ao visualizar o casco do catamarã, alguns navegantes experientes começaram a questionar e a duvidar que o impacto tenha sido com uma baleia. “Se fosse uma baleia não teria provocado tanta coisa. A pancada foi seca e de algo muito duro para provocar esse estrago”, disse um piloto de lancha com mais de 15 anos de experiência no mar, mas que prefere não se identificar.
“Apesar da baleia parecer ser muito forte, mas uma batida com o casco não provocaria tudo isso. Ela tem carne mole e não quebraria tanta coisa com uma pancada”, completa.
Uma das partes do casco construído em fibra de vidro está literalmente quebrado. Nesse mesmo lado, onde fica um dos motores, é visível também ver que uma estrutura de ferro fundido está avariada e quase solta da estrutura de fibra.
Um dos motores parou de funcionar por causa da pancada que acabou danificando uma barra de aço que sustenta as hélices. Além das hélices empenadas, a foto mostra a barra de aço também bastante danificada, o que, de acordo com o marinheiro ouvido pelo #AnB, “não pode ter sido provocado por uma baleia”.
 Barra de aço que sai do motor e faz girar as hélices também ficou empenada(Foto:Arquivo Pessoal)
Barra de aço que sai do motor e faz girar as hélices também ficou empenada(Foto:Arquivo Pessoal)
Mas, afinal, o que houve com o Farol do Morro? A Marinha diz que toda a rota traçada para a navegação entre Morro de São Paulo e Salvador é “hidrografada”, ou seja, toda ela consta do mapa de navegação devidamente estudado, estando livre de rochas ou outras barreiras naturais. A explicação foi dada pelo assessor de comunicação social do 2º Distrito Naval, Comandante Flávio Almeida.
“É preciso aguardar o resultado do inquérito. Não podemos adiantar nada sem que isso seja feito e é por isso que agimos com toda cautela possível em todos os casos”, disse o oficial.
Os mapas de navegação são bastante divulgados e do conhecimento obrigatório dos comandantes de embarcações. O abalroamento em rochas, bancos de areia ou qualquer obstáculo natural só ocorre se houver mudança de rota.
O trecho percorrido entre Salvador e Morro de São Paulo é bastante movimentado e em vários pontos é possível encontrar todos os tipos de embarcações, desde os que fazem pesca artesanal como os grandes navios cargueiros, não sendo difícil encontrar objetos de todos is tipos descartados por navegadores. O movimento das ondas do mar também é capaz de arrastar para áreas de navegação, troncos de árvores que são arrancadas de florestas próximas às praias.
Este não foi o primeiro acidente com um catamarã, mas o primeiro que terminou sem vítimas. Em 10 de dezembro de 2006, o bioquímico Ananias Bernardino da Silva, 61, morreu afogado depois que o catamarã Baía de Todos os Santos, que fazia a travessia entre Morro de São Paulo e Salvador ficou à deriva no mar com 132 pessoas – 103 turistas brasileiros e 25 estrangeiros. Todos ficaram aproximadamente quatro horas em mar aberto, enquanto aguardavam o resgate. O barco ficou à deriva depois que o motor parou. O catamarã começou a encher e corria o risco de afundar.
Parte dos passageiros subiu em botes com coletes salva-vidas. O restante, por conta do nervosismo e das ondas fortes, se agarrou às bordas da embarcação. Ananias, segundo testemunhas, tentou chegar à nado em uma praia, mas não resistiu. O corpo dele foi encontrado 36 horas depois do acidente.
O motor do barco parou de funcionar por volta das 18h de domingo, quando faltavam cerca de 11 km para chegar a Salvador. A água começou a invadir a proa do catamarã cerca de uma hora e meia após o início da viagem.
No dia seguinte, foi possível notar um rombo no casco do catamarã e houve conclusões de que o dano foi causado por um choque contra um tronco de árvore levado pelo mar e que estava na rota de navegação. O Ministério Público, na época, acionou a Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações da Bahia(Agerba) e mais cinco empresas que operam com o transporte marítimo em Salvador, dentre elas a responsável pelo acidente, sob acusação de transporte clandestino e falta de fiscalização nas condições de navegação e segurança dos passageiros.
Agora na Bahia

Nenhum comentário:

Postar um comentário