De pintura de rua em 2014 a craque da seleção: veja história de Gabriel Jesus



Na série especial de reportagens sobre os jogadores do Brasil na Copa, Tino Marcos apresenta Gabriel Jesus.

“Tatinha, Tetinha, Teta, ficava Tetinha, tatinha, Tetinha”, conta Gabriel Jesus.

“Teta, de Tetinha, no Peri, é só Teta”, confirma Higor.

“Chamo ele só de Teta”, completa Fábio

“Aí ficou Tetinha, Tetinha, Tetinha”, diz dona Vera Lúcia, mãe de Gabriel.

“Tetinha é um menino do Peri que só pensa em jogar bola, esse é o Tetinha”,
explica Caíque.

E por que mesmo?

“Por que Tetinha? Aí fui perguntar para ele. Ele falou, é porque o jogo era teta, ele falava quando era menor”, lembra Augusto Silva, amigo de Gabriel.

“Ele tinha mania de falar: ‘ah, está uma teta esse jogo’, então ficou assim: Tetinha”, explica dona Vera.

Descobrimos, então, um sinônimo para Tetinha, também de sete letras.

“Folgado”, diz dona Vera.

“Agora, na rua, eu era um pouquinho folgado, as pessoas vinham, dava tapa assim, eu xingava”, confirma Gabriel Jesus.

Tudo na Zona Norte de São Paulo, Jardim Peri, periferia. No antebraço e, para sempre, um Tetinha sonhador.

“É uma criança olhando para o morro, imaginando ser jogador de futebol”, explica Gabriel Jesus.

Caçula de três irmãos e nenhum pai.

“Eu estava grávida do Gabriel quando me separei. Falei: ‘não quero mais, vai embora e pronto acabou’. E eu fiquei com a família. Eu tive que ser pai e mãe, eu escolhi ser pai e mãe, eu cansei de subir aquela ladeira com cinco, seis sacolas assim”, contou dona Vera.

Três filhos homens e nunca faltou comida.

“Foi na faxina mesmo. Assim, trabalhava dia e noite na faxina”, diz Vera.

“Quando não tinha coisas, o vizinho emprestava, depois devolvia. Era assim. Acho que em todas comunidades é assim”, Gabriel Jesus.

Era feliz com o futebol na rua e acabou desbravando a várzea.

“Comecei no Bochechinha, depois fui para o Pequeninos, aí joguei no União com os adultos, joguei no Cachoeira, joguei no Vitória, aí, Anhanguera, aí, Palmeiras”, conta Gabriel.

Tinha 15 anos. Aos poucos, o Tetinha miúdo saía de cena para fazer história na base do Palmeiras. O recordista de gols do paulistão sub-17.

“37 gols, em 22 jogos”, lembra Gabriel.

Aos 18, time principal. Gabriel Jesus, campeão da Copa do Brasil e eleito a revelação do Brasileirão 2015. No ano seguinte, título brasileiro e melhor jogador do campeonato.

Até que o telefone tocou. Pep Guardiola, técnico do Manchester City.

“Acho que ele me entendeu um pouco e eu entendi ele um pouco”, lembra o jogador.

Só que não.

“Quando falamos por telefone, não sei se nos entendemos, porque eu não falava português e ele não falava inglês. Foi engraçado”, conta Pep.

O que veio a seguir também fez Guardiola sorrir de pura satisfação. O centroavante em quem apostou era campeão olímpico no Rio.

“É inexplicável. Acho que o maior título que eu já ganhei”, afirma Gabriel Jesus.

Menos de um mês depois, Jesus e Tite estreavam na seleção principal.

“Eu não esperava nem que eu iria receber a camisa 9, mais um sonho realizado”.

Em Quito, fez dois gols contra o Equador e um sofreu um pênalti.

“Ah, inesquecível”.

Na Inglaterra, gols e imediata adaptação ao sistema de jogo. E também à vida na Inglaterra, tão diferente daquela, na Zona Norte de São Paulo.

Em subúrbio que se preze, não existe Copa do Mundo sem pintura de rua. No Jardim Peri, por exemplo, é tradição que se renova. O problema é que em 2018 o time ficou meio desfalcado.

Spray verde, rolo amarelo, o mutirão se repete. Quatro anos atrás, era o Tetinha na mesma empreitada, colorindo o Jardim Peri com aquela esperança pré-Copa. 2014, era ainda o moleque bom de bola, o menino folgado.

“Eu já fui muito respondão, mas não para minha mãe”.

“Dona Vera é um zagueiro”, diz o irmão, Felipe.

“Uma mãe que só quer ver o bem do filho, mas muito exigente, então, as vezes pega para mim”, conta Gabriel.

Ai do Gabriel se não avisasse por onde andava no Peri. Assim surgiu a brincadeira.

“Alô mãe, é uma comemoração nossa para a dona Vera”, conta Higor.

“Que que é o alô mãe? As pessoas falam... Porque eu ligava para ele para dar uma bronca e tem a questão dos amigos, que é esse negócio da mãe: ah, a mãe está ligando”, lembra dona Vera.

Hoje, imediatamente depois dos gols, ele liga. E ela? Mais compreensiva.

“Agora acho que ele está ficando menos impedido”.

Gabriel, os irmãos e os melhores amigos, que moram com ele na Inglaterra: “Alô mãe” em cada pele. A do Gabriel, aliás, é quase uma biografia em desenho.

A comemoração do primeiro gol pela seleção tatuado. No antebraço, o Jardim Peri, e, no braço esquerdo, dona Vera, claro. No rosto, o irmão. Sorriu? Taí, ó. A marca do Caíque.

“A gente tinha mania de acordar, e ficar brincando na cama e tal”, conta Caíque.

“Ele caiu do beliche com três anos, ele brincando com o Caíque”, lembra Vera.

“Ele caiu, aí deslocou um nervo na bochecha”.

“Não dói, de boa, mas ficou assim. Está na conta do Caíque, ele sabe”, diz Gabriel.

“Mas ficou bonitinho o sorriso dele, com aquilo ali, ficou charmoso. É o charme dele”, diz Caíque.

“Meu caroço está famoso agora”.

A dona Vera também.

“Pode mandar embora a Vera Fischer e pega eu”, diz dona Vera.

Dona Vera e seu caçula; 21 anos, o caçula também da seleção.

“Poderia pausar nessa idade e não envelhecer mais”, diz o jogador.

Em Manchester tem irmão, amigos, pandeiro e cavaquinho. Mesmo longe do Jardim Peri, o Tetinha faz planos para a Rússia. Coisa de moleque folgado.

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