Bahia não avança em desempenho de alunos em português e matemática no ensino médio

Foto: Eloi Corrêa/ GOVBA
Somente 9 das 27 redes estaduais do país conseguiram no ano passado que seus alunos do ensino médio melhorassem os desempenhos em matemática e português na principal avaliação federal. São eles: Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Goiás, Minas Gerais, Acre, Ceará, Tocantins, Sergipe e Alagoas.
Ainda assim, todas essas redes permaneceram em patamares distantes do adequado na etapa, considerada hoje um dos principais desafios da educação básica do país.
Os resultados estão no Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), divulgado nesta quinta-feira (30) pelo MEC (Ministério da Educação).. Os números mostram os níveis de aprendizagem dos alunos ao fim de três etapas de ensino: anos iniciais (5º ano) e finais (9º ano) do ensino fundamental e ainda o ano final do ensino médio.

As notas dos dois ciclos do ensino fundamental melhoraram no ano passado, considerando as redes pública e privada de todo o país.

As provas foram realizadas em 2017. Esses resultados compõem, combinados com as taxas de aprovação das escolas e redes, o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). Tanto a avaliação quanto o índice são produzidos a cada dois anos. Os últimos dados disponíveis eram os de 2015.
Desta vez, o governo Temer decidiu fatiar a divulgação dos resultados, o que rendeu críticas de especialistas. Dessa forma, o Ideb -principal indicador de qualidade da educação básica do país- será conhecido somente na segunda-feira (3). Não foram disponibilizados até agora dados das redes municipais, que concentram a matrículas do ensino fundamental, nem as informações por escola.
Os números apresentados da avaliação federal indicam, mais uma vez, que o ensino médio tem os resultados mais preocupantes entre as séries avaliadas. As redes estaduais concentram mais de 80% dos alunos de ensino médio do país.
Na média das redes administradas pelos governos estaduais, mais uma vez o desempenho caiu em matemática e em língua portuguesa. É a quarta queda consecutiva em matemática.
Essa disciplina teve média de 259 (considerando o desempenho de alunos das redes estaduais). De acordo com a escala de proficiência do Saeb, os estudantes não seriam capazes, por exemplo, de fazer cálculos simples de probabilidade. O índice considerado adequado é 350, segundo classificação do Movimento Todos Pela Educação.
Em língua portuguesa, a nota média também foi de 259. Já nessa disciplina o índice adequado é 300. Ao fim do ensino médio, a maioria dos alunos não seriam capazes de, por exemplo, identificar informação implícita em textos como poemas modernistas.
Ainda em língua portuguesa, o estado que obteve o maior avanço na nota foi o Ceará (passou de 248 em 2015 para 259 em 2017), mas ficou apenas no patamar da média nacional. Em matemática, o destaque é o Espírito Santo, que ganhou quase dez pontos.
A rede do Espírito Santo lidera o ranking do ensino médio nas duas disciplinas. Tem a maior nota em matemática, de 281, entre todas as redes estaduais do país pelo segundo ano consecutivo. Passou o Mato Grosso do Sul em português e chegou a 277. Mesmo com o avanço, a média da rede também fica abaixo do nível considerado adequado.
A Secretaria de Educação do Espírito Santo ressaltou o trabalho feito nas 32 escolas de tempo integral. O modelo educacional (com aulas das 7h30 às 17h) inaugurado em 2015 no estado atende 20 mil alunos da rede. O modelo trabalha o protagonismo dos estudantes, com o objetivo de combater um dos dramas do ensino médio: a falta de sentido dos conteúdos.
“É um processo que a escola desenvolve autoconhecimento: quem eu sou? O que já vivi? Com o que me identifico? O que quero? Ajudamos a se estruturar por metodologias para definir sonhos e uma trilha a ser seguida no futuro”, diz o secretário de Educação, Haroldo Rocha. “A diferença é que acolhemos os jovens.”
Como escolas de tempo integral exigem mais recursos, o modelo só chegou a uma mínima parcela dos alunos do estado, o que é alvo de críticas: menos de 8% dos 260 mil alunos da rede estadual estão no sistema -o restante continua em escolas públicas convencionais.
Diante do gargalo nacional do ensino médio, os indicadores de aprendizagem não são os únicos indicadores dessa crise. A etapa tem uma de evasão de 11% no país, chegando a 13% na região Norte. Cerca de 1,5 milhão de jovens de 15 a 17 anos estão fora da escola.
Para o educador Mozart Neves Ramos, o ensino médio “é como um paciente na UTI", mas sem que se saiba bem o remédio”. Ramos reforça, no entanto, a importância de a etapa ter uma base curricular.
“O resultado coloca mais uma vez para os futuros governantes uma preocupação emergencial para a questão do ensino médio no Brasil: não dá mais para continuar sem uma mínima unificação que a base pode oferecer”, diz ele, que é diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna.
A Base Nacional Comum Curricular define o que os estudantes da educação básica devem aprender a cada etapa. A parte da educação infantil e do ensino fundamental já foi finalizada e tem sido discutida nos estados e municípios.
Já o bloco do ensino médio continua em discussão no CNE (Conselho Nacional de Educação). A versão entregue pelo governo ao órgão tem sido fortemente criticada e, pressionado, o MEC se comprometeu a melhorá-la.
A definição da base tem ligação direta com a reforma do ensino médio, aprovada por medida provisória pelo governo Temer em 2016. A reforma prevê flexibilização curricular e só passa a valer depois da aprovação da base.
Com a reforma, o ensino médio passa a ser organizado com uma área comum, referente a 60% da carga horária, e uma segunda parte a ser escolhida pelo aluno a partir de cinco áreas: ciência humanas, ciências da natureza, matemática, linguagens e educação profissional.
Essa flexibilização curricular sempre foi apontada com um dos caminhos para melhorar o ensino médio. Há receio, entretanto, sobre a capacidade de todas as escolas e redes oferecerem uma variedade de itinerários, dado opções a todos os alunos. Mais de metade dos municípios do país só tem uma escola de ensino médio, dificultando a oferta de cinco opções para os estudantes
Professor da Universidade Federal Fluminense, Paulo Carrano também lança mão da metáfora médica para comentar a etapa. “O governo acaba fazendo um diagnóstico acertado, o ensino médio está com problema, mas apresenta um remédio precário”, diz ele, referindo à base e à reforma do ensino médio.
“É uma rede que cresceu recentemente para amplas maiorias e que não se adaptou, não se investiu, não se construiu laboratórios, a rede não se instrumentalizou”, diz ele, que é pesquisador do Observatório Jovem da federal. “Não adianta dizer que vai melhorar só porque vai fazer arranjo curricular ou lei do ensino só para institucionalizar a desigualdade”.

ENSINO FUNDAMENTAL
Com relação ao ensino fundamental, os anos iniciais mantiveram a tendência consistente de melhoria. A etapa assou de 219 para 224 em matemática -um ponto do considerado adequado.
Em português, a média foi de 208 para 215, já acima dos 200 pontos exigidos como adequados.
Esses dados referem-se à média do país levando em conta as redes municipais, estaduais e escolas privadas. O MEC não divulgou os dados desagregados, o que impede identificar e avaliar o trabalho das redes municipais, por exemplo.
Nos anos finais, a nota de matemática passou de 256 para 258 (adequado é 300) e foi de 252 para 258 em português. O adequado nessa matéria é de 275.
BN

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