Uso do cerol tem punição branda em Salvador; “solução” da prefeitura divide opiniões

Qual o limite entre a brincadeira que atrai adultos e crianças e a prática criminosa que tira vidas? No caso das pipas, a pergunta pode ser respondida com apenas uma palavra: cerol. É o composto produzido através da junção de vidro moído e cola que transforma as linhas em verdadeiras navalhas, como a que matou o motociclista João Arcângelo Rend, no último domingo (26).
Apesar de bizarros, casos como o do motociclista não são novidade em Salvador. “É um grande problema que temos. A gente vê que é um costume [o uso de linhas temperadas]”, disse o diretor técnico da Associação de Motociclistas do Estado da Bahia, Francisco Rabello. Mesmo sem haver dados oficiais sobre a quantidade de mortos e feridos por causa do cerol, o grande número de relatos mostra o quão nociva a prática pode ser. “Tive o pescoço
cortado enquanto andava de bicicleta atrás do Aeroclube. É uma sensação de impotência. No meu caso, foi um corte superficial, mas poderia ter tirado minha vida. Não vejo uma solução por parte dos órgãos públicos para coibir esse crime”, reclama o ciclista Sérgio Gomes.
Salvador tem punição 20 vezes menor que a aplicada em outras cidades
Em junho de 2017, o prefeito ACM Neto sancionou o projeto de lei que proíbe o uso de “objetos cortantes” na preparação das linhas de arraias. O texto, de autoria do vereador Tiago Correia (PSDB), determina que quem for flagrado usando o cerol deve ser advertido e, em caso de reincidência, receber uma multa de R$ 70 valor destinado ao Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (FMDCA).
Porém, para a Associação de Motociclistas da Bahia, a punição deixa a desejar. “Observamos legislações de outros estados, como Minas Gerais e São Paulo, e são multas que variam de R$ 100 a R$ 1,5 mil”, explicou.

Prefeitura aposta em “pipódromo”
Para o vereador autor da lei que proíbe o uso do cerol, endurecer a punição não garante resultado. “A lei tem um papel muito mais educativo que punitivo”, argumentou. Como solução para o problema, segundo Correia, a prefeitura estuda a criação de um “pipódromo”. “Em um local onde não fosse colocada a vida de ninguém em risco. Já tem uma área em vista, depois do aeroporto. Conversamos com o secretário André Fraga, já existia a indicação de uma área”, explicou.
Mas, para o especialista em aviação Glauco Barreto, a região do aeroporto não deve ser destinada para a prática. “É perigoso. O risco é para as grandes [aeronaves] também”, disse.

Parque dos ventos pode ter regras
O secretário André Fraga explicou que cabe à Fundação Mario Leal Ferreira (FMLF) realizar o estudo para escolher a melhor área para a implantação do pipódromo. “A secretaria não desenvolveu nenhum estudo para isso [...] a gente está trabalhando a possibilidade de o Parque dos Ventos ter esse espaço destinado a pipa, com regras e tal”, disse o secretário. Mas, para quem já sofreu algum acidente com o cerol na região, a prática deveria acontecer em outra área. “Aqui passa muita gente”, opina o ciclista Sérgio Gomes.

Fiscalização e jogo de empurra
Em reunião com representante da categoria, após a morte do motociclista no último domingo, o prefeito ACM Neto (DEM) prometeu aumentar a fiscalização do uso do cerol, principalmente na região do Aeroclube. De acordo com a Polícia Militar da Bahia, coibir a prática não está “entre as prioridades” da corporação. “Temos ‘N’ demandas para atender. Até porque, há uma lei municipal que restringe esse tipo de artifício”, explicou o capitão Bruno Ramos em entrevista à Metrópole.

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