Brasil - Paciente do Hospital das Clínicas deixa unidade após 43 anos de internamento

As paredes eram brancas e a janela só tinha vista para a copa de uma árvore e pedaços de arranha-céus da maior cidade do Brasil. O cenário foi praticamente o único que Eliana Zagui conviveu durante 43 dos 44 anos de vida. Diagnosticada com poliomielite quando tinha um ano, ela passou a morar em um quarto de hospital. A rotina fria que foi imutável por quatro décadas finalmente mudou. Há um mês, ela vive na casa de um amigo em Sumaré (SP) e substituiu o branco por cores, a copa da árvore por plantas no quintal e o sonho de viver fora da unidade médica pela liberdade de fazer planos: viajar, dar palestras e ajudar as pessoas.
Eliana descobriu que tinha pólio em pleno surto da doença, na década de 1970. O desconhecimento dos médicos à época, que disseram que crianças com dor de
garganta não poderiam tomar vacina, fez o quadro se agravar. Ela perdeu os movimentos do pescoço para baixo e passou a respirar só com a ajuda de aparelhos. Sem poder pagar o tratamento e todos os equipamentos, a família optou, em 1976, por deixá-la morando no Hospital de Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) por tempo indeterminado.
O planejamento de viver fora do hospital começou muito antes dela conseguir deixar a unidade, no dia 22 de dezembro do ano passado. Além da determinação e da garra para nunca deixar a doença derrotá-la, o fator determinante para a realização do sonho foi o cruzamento dos destinos dela e do cabeleireiro Lucas Negrini. Os dois se conheceram pela internet em 2002 e a amizade fez o jovem de 35 anos mudar todo o rumo da vida para “adotar” Eliana em casa.
O mês em liberdade trouxe um novo ritmo à rotina da paciente. Na cama adaptada em um dos quartos da casa de Lucas, ela mistura novos e velhos hábitos. O gosto pelos livros e pela pintura, paixões adquiridas nos anos de Hospital das Clínicas, se une às descobertas da vida fora, como a relação com os cachorros, a diversão com filmes e músicas, e o contato com a natureza em passeios que faz constantemente. O preferido? Uma represa próximo à casa da nova família.

“Eu ainda estou me ajeitando na nova rotina, mas a principal diferença é poder sair. Ter a liberdade de ver a luz do sol quando eu quiser, ver a natureza, que eu gosto muito. Aqui, até o meu bom dia é diferente. Lá no hospital tinha dia que eu nem respondia bom dia. Aqui eu estou feliz, a gente sai, vai em um barzinho aqui perto, já fui em churrasco, mas o que eu adoro mesmo é a represa, me divirto”, contou Eliana.

E agora?
Os 43 anos alternando a esperança para deixar de morar no hospital, e o empenho para lidar com a rotina pesada do monitoramento constante dos médicos, não reduziram os objetivos de Eliana. Entre os planos muito bem definidos, o principal deles é andar de avião para poder viajar e conhecer o Sul do Brasil e Portugal, os lugares que mais sonha em visitar.
Os projetos profissionais, assim como a rotina, também misturam passado e presente. O passatempo que aprendeu no hospital virou profissão. Atualmente, ela pinta quadros e pretende usar as obras para ganhar dinheiro. Junto com a pintura, pretende entrar no ramo de palestras para ajudar pessoas que também perderam os movimentos do corpo por conta da poliomielite ou adquiram outro problema de mobilidade.

“Se você não sonhar, o que você é? As pessoas já nascem com o não pra tudo, então não pode perder a fé e perseverar nos objetivos. Eu demorei 43 anos para realizar meus planos. O que não pode é colocar mais empecilho do que já tem. As pessoas têm uma cultura de vitimismo. Eu também tenho meus dias de vitimismo, mas isso não pode virar rotina”, disse.


*G1

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