Salvador - Estátua de Zumbi dos Palmares tem lança roubada no Pelourinho

A histórica estátua de Zumbi dos Palmares, que fica no coração da Praça da Sé, no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador, foi alvo de vandalismo. Metade da lança que a imagem de Zumbi segura, foi roubada. Não há informações sobre a autoria do ato ou quando ocorreu.
A estrutura, feita em bronze, tem 2,20 m de altura e pesa 300 quilos. A obra, inaugurada em 2008, é assinada pela artista plástica Márcia Magno e é considerada a primeira estátua a retratar Zumbi de corpo inteiro, o que seria a primeira “identidade física” do herói.
O Jornal Correio esteve no local e conversou com ambulantes e turistas que passavam no local. Quem tirava foto com a estrutura, sequer notava a ausência da lança.
De férias em Salvador, o analista financeiro Reginaldo Soares, 36 anos,
lamentou a depredação.
"Em São Paulo é muito comum roubarem membros das estátuas. Na maioria dos casos, é para vender ou trocar por droga. Infelizmente isso acontece em todo o lugar, inclusive em Salvador, uma cidade forte culturalmente”, disse.
Os ambulantes do local até dizem saber quem é o responsável pelo ato de vandalismo, mas têm medo de falar. “Há 20 dias fizeram isso. Mas não posso falar mais nada, porque foi gente daqui mesmo que fez isso. Deve ser para trocar ou vender por droga”, revelou um ambulante, que trabalha próximo à estátua, mas prefere não se identificar.
A ação coloca em cheque a valorização da cultura no país. “Puro vandalismo. Uma tristeza. Vergonha para o país. Em outros países, as pessoas iam pensar duas ou mais vezes em agir desta forma. Isso porque a cultura é valorizada em outros lugares”, reclamou o eletricitário paulista Luiz Oscar de Paula Vale, 57, que está há três dias em Salvador.
Já a administradora Andréa Almeida, 28, moradora de Juazeiro, pediu respostas. “É difícil de acreditar. É a cultura sendo depenada. É preciso que as autoridades combatam esse tipo de crime”, disse.

Violência
Ex-diretora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba), artista plástica Márcia Magno, responsável pela obra, demonstrou indignação ao comentar o furto da peça.
"Eu estou indignada, ali é um local tão visível, onde as pessoas transitam. As pessoas não têm o mínimo de respeito.Como é que uma coisa dessas pode acontecer? Estou passada com isso", lamentou.
Segundo Márcia, que soube do crime nesta sexta-feira (11), uma outra obra dela, do escritor João Ubaldo Ribeiro, na Praça Nossa Senhora da Luz, no bairro da Pituba, também sofreu vandalismo recentemente.
"A do João Ubaldo é de fibra de vidro, certamente quebraram pra ver se era de bronze. Porque a de Zumbi é de bronze. Várias estatuas minhas já foram roubadas. José Silveira, na Federação, Edgard Santos, na Paralela. Algo que muito me entristece". Ao Jornal Correio, a artista explicou refazer a peça envolve um projeto que levaria tempo.
"O valor financeiro é irrisório, digo isso com segurança. Mas é algo que leva tempo porque é todo um projeto, refazer o protótipo. O que me fere é a violência com a escultura", acrescentou.
Márcia comentou que a peça levada, de cerca de 1,30 m, só pode ser fundida no Rio de Janeiro.

Quem responde?
A Fundação Gregório de Mattos (FGM) é a responsável pela obra de arte. Apesar da informação de que a lança sumiu há 20 dias, a entidade não tinha conhecimento do fato, que foi informada pelo Jornal Correio. “A partir da denúncia recebida, através deste jornal, com relação a mais um ato de vandalismo, desta vez na estátua de Zumbi dos Palmares, a FGM informa que vai tomar as providências cabíveis”, disse a fundação, através de nota enviada ao jornal.
Agora, a Fundação irá registrar o ato na Polícia Civil, identificar possíveis imagens de segurança que possam registrar o ocorrido e providenciar a recuperação da lança. Ainda não há uma estimativa do prejuízo financeiro ocasionado pelo roubo.
A Polícia Civil também foi procurada, mas não há informação se alguma ocorrência foi registrada na 1ª Delegacia Territorial (Barris).

Outros casos
No início deste mês, esculturas de ferro de Mario Cravo Jr. também foram vandalizadas. Em uma semana, duas das três imagens que ficam na antiga sede dos Correios, na Pituba, tiveram pedaços furtados.
"Vimos a depredação, já vi que arrancaram os braços de Iemanjá. É uma imoralidade, um desrespeito absoluto. É o trato com a coisa pública e o país que a gente vive", lamentou Otávio Cravo, um dos filhos do artista.
As esculturas serão doadas para o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac). “Feita a restauração, vamos sentar com a Secretaria de Cultura para definir qual o melhor lugar para expor essas obras para a sociedade”, explicou João Carlos de Oliveira, diretor do Ipac.

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