Excesso de exposição de crianças à tecnologia pode causar consequências nocivas ao cérebro, alerta especialista

Desde que a indústria do marketing descobriu que o mercado infantil fatura e muito, as crianças têm sido bombardeadas por mensagens que estimulam o consumo.
Em entrevista ao Bocão News, a psicóloga Luciana Caldas, especialista em neuropsicologia, explica as consequências da invasão consumista em nossas casas. “A exposição de crianças cada vez mais novas à tecnologia e o excesso diário desse contato podem desencadear consequências nocivas no cérebro e no comportamento das mesmas”, afirma.
Leia a entrevista completa que trata sobre o consumismo infantil e a importância do limite que deve ser imposto pelos pais.

Os pais estão com dificuldade de entender os filhos? É grande a procura por psicólogos, psicopedagogos e neuropsicólogos?
Cada vez mais cresce a procura dos pais por acompanhamento psicológico para seus filhos nos consultórios. Grande parte desta demanda reflete a dificuldade e a angústia dos pais em lidar com questões que envolvem o comportamento das crianças. Isso se deve, em parte, pelas mudanças que acompanham as novas gerações e a insegurança das famílias diante delas.

Qual é a maior angústia dos pais na criação dos filhos, o que eles mais querem?
Dizer “não” ainda é muito difícil para os pais, pois a ideia de que isso pode causar sofrimento e frustração nos filhos leva-os a assumir uma postura permissiva e ao não estabelecimento de limites definidos que norteiem o comportamento das crianças.

Como a internet (youtubers e cia) e tecnologia estão influenciando a formação das crianças?
A internet tem um papel muito importante no processo de aprendizagem de crianças, especialmente por ampliar o acesso a estímulos através de meios que despertam a motivação delas. Os jogos auxiliam no desenvolvimento de funções cognitivas como memória, atenção, noções espaciais, além da internalização de regras. Contudo, a exposição de crianças cada vez mais novas à tecnologia e o excesso diário desse contato podem desencadear consequências nocivas no cérebro e no comportamento das mesmas. Além disso, os vídeos e personagens que conquistaram a atenção das crianças trazem temas importantes ao universo infantil, e de forma lúdica podem transmitir valores e auxiliar no processo de educação. Entretanto, também podem causar uma influência nociva por transmitir conteúdos inadequados, estimular o consumismo desnecessário (já que muitos são patrocinados por determinadas marcas) ou ensinar maus comportamentos. Como eles viram referência para as crianças, a chance delas acreditarem e reproduzirem o que eles falam ou fazem é realmente muito grande.

É possível afirmar que os pais permitem o acesso das crianças a tudo isso para compensar ausência?
A permissividade, muitas vezes, está relacionada a uma postura compensatória dos pais. Em razão de jornadas excessivas de trabalho e da dificuldade de conciliar o tempo com as demandas de presença e atenção da criança, os pais acabam cedendo aos desejos dos filhos, permitindo que mantenham hábitos de acesso aos recursos tecnológicos sem que haja uma mediação, limite ou mesmo acompanhamento do uso que a criança faz destes instrumentos.

Os pais também se sentem estimulados a seguir os “modismos” e consumismo do momento?
Sim. Os meios de comunicação bombardeiam nossos cérebros com técnicas persuasivas que nos levam a consumir, nos fazendo acreditar que aquele produto ou serviço é necessário para a nossa felicidade e realização. A decisão por comprar, muitas vezes, não chega a ser consciente, mas um impulso levado pela emoção, despertado pelas campanhas publicitárias.

Ainda sobre modismo/consumismo, como os pais podem agir diante dessa situação?
A superestimulação do consumo através dos meios de comunicação tem influenciado potencialmente as crianças. A melhor maneira dos pais reduzirem o impacto na formação e no comportamento dos filhos é, inicialmente, revendo seus próprios hábitos de consumo. Os filhos se espelham, na maioria das vezes, na figura dos pais. Estes têm influência direta nos padrões de consumo da criança. Um outro ponto importante é estar atento ao que a criança é exposta no dia a dia, controlando o uso excessivo e indiscriminado de recursos tecnológicos.



*Bocão News

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